A “mudança de paradigma” do Papa Francisco: continuidade ou ruptura na missão da Igreja?

José Antonio Ureta | IPCO | Balanço quinquenal do pontificado de Francisco

O retraimento pastoral dos “valores não negociáveis”

Emma Bonino (1)

Emma Bonino, militante a favor do aborto, recebeu simpatia e elogios do Papa Francisco

Desde o começo de seu pontificado, Francisco desejou abandonar o paradigma anterior no tocante à batalha em defesa dos princípios não negociáveis, estabelecendo outras prioridades. Seus pronunciamentos fortes sobre temas éticos os quais indubitavelmente existem não chegam habitualmente no momento oportuno, como se quisesse evitar qualquer eventual choque com o establishment. Em consequência, suas declarações sobre tais temas parecem fora do contexto e são quase sempre ignoradas pela mídia.

Vizinhança com os promotores da demolição dos valores cristãos não negociáveis

Inúmeras têm sido as demonstrações de vizinhança e simpatia humana, e até de elogios, do Papa Francisco em relação a Marco Pannella[1] e Emma Bonino[2], líderes do Partido Radical e principais promotores da aprovação legal, na Itália, do divórcio, da contracepção e da fertilização in vitro, do aborto, da eutanásia e das uniões civis homossexuais.

Ele telefonou a Pannella no hospital, logo após este sofrer uma operação, e lhe deu apoio em sua campanha de crítica ao sistema carcerário[3]. Vindo a falecer, sua morte foi pouco depois qualificada pelo arcebispo Vincenzo Paglia — presidente da Academia Pontifícia pela Vida e muito conhecido por sua proximidade com o Papa — de “uma grande perda para nosso país”, por ter sido “inspirador de uma vida mais bela não apenas para a Itália, mas para nosso mundo, que precisa mais do que nunca de homens que saibam falar como ele”[4].

O Papa Francisco telefonou também a Emma Bonino, tristemente célebre nos anos 1970 por praticar clandestinamente abortos e publicar uma foto de um deles num hebdomadário com vistas a promover a sua legalização. Falou com ela de imigrantes, de pobreza e dos naufrágios de imigrantes no Mediterrâneo[5] e, mais tarde, numa entrevista com Massimo Franco do Corriere della Sera, citou-a, juntamente com o ex-presidente e antigo líder comunista Giorgio Napolitano, “entre os grandes da Itália de hoje”, por ser “a pessoa que conhece melhor a África”, acrescentando: “Dizem-me: é gente que pensa de modo distinto de nós. É verdade, mas paciência! É preciso olhar as pessoas e aquilo que fazem.”[6] Concedeu posteriormente uma audiência privada à referida líder feminista e abortista, a qual se centrou “sobretudo nos temas dos fluxos migratórios, da acolhida aos imigrantes e de sua integração”[7].

Inspirado certamente nos gestos do Papa Francisco, o cardeal-arcebispo de Nápoles, Dom Crescenzio Sepe, abriu as portas do histórico santuário de Capodimonte a Emma Bonino para que ela realizasse um comício político prévio às eleições parlamentares[8], gesto que foi imitado depois por outras paróquias da Itália.

Causou igualmente comoção no mundo católico o fato de a Santa Sé ter concedido a cruz da Ordem de São Gregório Magno à ex-ministra holandesa Lilianne Ploumen, conhecida pelo seu apoio ao aborto e às reivindicações do lobby LGBT[9].

No mesmo sentido, foi chocante a publicidade que o quotidiano Avvenire, propriedade do episcopado italiano, deu a Beppe Grillo — fundador do Movimento 5 Estrelas e conhecido defensor do aborto e da eutanásia — precisamente no momento em que os deputados do seu movimento estavam apoiando na Câmara dos Deputados o projeto de lei sobre o chamado “testamento biológico”, um eufemismo para a eutanásia. De fato, o Avvenire publicou uma longa entrevista com esse líder político no mesmo dia em que o diretor do jornal dos bispos concedia uma entrevista ao Corriere della Sera elogiando suas posições, simultaneidade definida pela TV do episcopado como sendo “a aproximação entre Movimento 5 Estrelas e o mundo católico”[10].


Notas

[1] “Entre os mais longevos atores da cena política italiana nas últimas cinco décadas, abraçou e viveu como protagonista praticamente todas as batalhas civis combatidas em nosso país: daquelas pelo divórcio e pelo aborto dos anos 60 e 70, até aquelas mais recentes pela despenalização das drogas, contra a obstinação terapêutica, pelo direito à eutanásia, e em defesa dos direitos dos presos” (Sandro Iannaccone, Addio a Marco Pannella. Ecco la sua storia https://www.wired.it/attualita/politica/2016/05/19/chi-era-marco-pannella/).

[2] “Nossa Senhora das Batalhas (sic!) (…) Emma Bonino ocupa-se de política há mais de trinta anos, com métodos que têm suscitado controvérsias. A sua carreira iniciou-se, de fato, em meados dos anos 70 com a luta pela legalização do aborto na Itália e, sucessivamente, pela afirmação do divórcio e a legalização das drogas leves. (…) As posições expressas por Emma Bonino raramente são conciliadoras; pelo contrário, guerreiam contra a suposta sensibilidade comum, particularmente num país como a Itália. Por exemplo, recentemente se opôs ao Vaticano pela decisão da Igreja Católica contrária à experiência com as chamadas células estaminais (que dariam esperança de cura a pessoas afetadas de diversas patologias), manifestando diante de São Pedro com cartazes que alguns consideram blasfemos, como ‘No Taliban. No Vatican‘” (in https://biografieonline.it/biografia-emma-bonino).

[3] http://www.repubblica.it/politica/2014/04/25/news/papa_pannella_sciopero_sete-84450161/

[4] http://www.iltimone.org/35739,News.html

[5] http://www.repubblica.it/politica/2015/05/02/news/bonino_papa_francesco_mi_ha_telefonato_per_chiedermi_come_sto_-113373754/

[6] http://www.corriere.it/cronache/16_febbraio_08/francesco-il-mio-abbraccio-fratelli-ortodossi-739bf6ee-cdf6-11e5-9bb8-c57cba20e8ac.shtml

[7] https://www.avvenire.it/papa/pagine/papa-riceve-in-udienza-emma-bonino

[8] Um grupo de fiéis do comitê pró-vida da arquidiocese escreveu ao purpurado: “Chegou ao nosso conhecimento que a cripta da Basílica da Coroada Mãe do Bom Conselho em Capodimonte, um dos corações palpitantes da fé napolitana, foi cedida com fins políticos à Sra. Emma Bonino — justamente àquela que reivindica com orgulho suas décadas de batalhas, infelizmente vitoriosas, em favor do divórcio, do aborto, da fecundação artificial, à tenaz defensora da liberalização das drogas chamadas leves e da legalização da eutanásia, todas elas iniciativas contrárias ao magistério e ao Catecismo da Igreja Católica” (Dall’aborto all’altare: la radicale Bonino fa il comizio in chiesa, http://www.ilgiornale.it/news/politica/dallaborto-allaltare-radicale-bonino-fa-comizio-chiesa-1495773.html)

[9] http://www.lepantoinstitute.org/pope-francis/pope-francis-awards-architect-safe-abortion-fund-pontifical-honor/

[10] http://www.huffingtonpost.it/2017/04/19/beppe-grillo-avvenire-san-pietro-apre-la-porta-ai-barbari_a_22046504/

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