A “mudança de paradigma” do Papa Francisco: continuidade ou ruptura na missão da Igreja?

José Antonio Ureta | IPCO | Balanço quinquenal do pontificado de Francisco

O retraimento pastoral dos “valores não negociáveis”

Padre Antonio Spadaro (1)

Desde o começo de seu pontificado, Francisco desejou abandonar o paradigma anterior no tocante à batalha em defesa dos princípios não negociáveis, estabelecendo outras prioridades. Seus pronunciamentos fortes sobre temas éticos os quais indubitavelmente existem não chegam habitualmente no momento oportuno, como se quisesse evitar qualquer eventual choque com o establishment. Em consequência, suas declarações sobre tais temas parecem fora do contexto e são quase sempre ignoradas pela mídia.

A prioridade na defesa dessas exigências éticas fundamentais e irrenunciáveis foi explicitamente abandonada pelo Papa Francisco. Na espécie de manifesto programático de seu pontificado que é a entrevista ao Pe. Antonio Spadaro, diretor da Civiltà Cattolica — depois reproduzida por todas as revistas jesuítas do mundo, nos respectivos idiomas —, ele declarou o seguinte: “Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. (…) Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. (…) Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio1.

Ele reafirmou essa tese no primeiro aniversário de sua ascensão ao trono pontifício, em entrevista ao diretor do Corriere della Sera: “Nunca entendi a expressão ‘valores não negociáveis’. Os valores são valores, e basta, não posso dizer que entre os dedos de uma mão2 há um que é menos útil do que outro”3. E na sua primeira encíclica Evangelii gaudium, ao fornecer uma visão de conjunto da realidade contemporânea e os desafios que ela apresenta para a ação evangelizadora da Igreja, o Papa Francisco põe em prática o “novo equilíbrio”, falando extensamente e em termos emotivos da economia de exclusão, da idolatria do dinheiro, da desigualdade social, do secularismo e da urbanização, mas mencionando apenas de passagem, e com retraimento, o aborto e a família4.

É inegável que ao longo de seu pontificado ele tem feito pronunciamentos ocasionais em defesa do direito à vida, do casamento como união de um homem e uma mulher e dos direitos dos pais, mas tais declarações são destiladas ao ritmo e com a dimensão que teriam se saíssem de um conta-gotas, e são contrariadas por iniciativas práticas que lhes retiram grande parte da sua eficácia pastoral.

Eis alguns exemplos de tais atuações: (Clique no exemplo para abrir a página)

  • Vizinhança com os promotores da demolição dos valores cristãos não negociáveis
  • Promotores da contracepção compulsória e do aborto convidados ao Vaticano
  • Desnaturamento de instituições vaticanas até então na ponta de lança da defesa dos valores não negociáveis
  • Nova posição vaticana abre um batente da porta à eutanásia
  • Silêncio pontifício em votações cruciais
  • A Igreja está agindo como “se não tomasse seus ensinamentos a sério”

Notas

2 Nessa citação até a analogia é incorreta, porque os fisioterapeutas afirmam que de fato existe uma hierarquia na utilidade dos dedos da mão. “Hierarquia dos dedos — Polegar: Sempre tem sido considerado como o dedo mais importante da mão. Intervém tanto nas pressões de força quanto nas pinças de precisão. (…) Indicador: É um elemento primordial nas pressões finas, policidigitais. (…) Médio: É pouco importante do ponto de vista funcional quando é distal, exceto para a escrita e a pressão multipulpar esférica, mas muito incômodo se é proximal, pois permite a fuga dos objetos pequenos (…). Minguinho: É essencial em todas as pressões de força. É impossível utilizar um martelo sem bloquear o instrumento com os dois últimos dedos. (…) Anular: É essencial nas pressões de força, mas é o que menos incomoda nas amputações” (J. Delprat, S. Ehrler, M. Romain, J. Xenard, “Estudio de la prensión”, https://fr.scribd.com/document/106460939/05-Estudio-de-La-Prension).

4 A mesma ideia foi retomada na Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, publicada no quinto aniversário da inauguração de seu ministério petrino. No n° 101, o Papa Francisco escreve:

É nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então o relativizam, como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem. A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada (…). Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravidão, e em todas as formas de descarte”. E no n° 102, reitera: “Muitas vezes ouve-se dizer que, em face do relativismo e dos limites do mundo atual, seria um tema marginal, por exemplo, a situação dos migrantes. Alguns católicos afirmam que é um tema secundário relativamente aos temas ‘sérios’ da bioética. Que fale assim um político preocupado com os seus sucessos, talvez se possa chegar a compreender; mas não um cristão, cuja única atitude condigna é colocar-se na pele do irmão que arrisca a vida para dar um futuro a seus filhos” (https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html).

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