Urnas eletrônicas (1)

“Um boletim de voto tem mais força que um tiro de espingarda.” (Abraham Lincoln)

Manchete presente em dez de cada dez jornais e telejornais brasileiros nas épocas de eleição, a chamada “festa da democracia” é mais um engodo que nos ensinam desde a tenra infância. Lembro-me muito bem da época em que a Constituição de 1988 foi promulgada, da euforia de alguns de nós (os de treze a quinze anos de idade) em saber que poderíamos votar em breve, assim que fizéssemos dezesseis. Para aqueles meninos e meninas, votar significava democracia – “se eu posso votar, tenho o poder de escolher quem vai governar!”, pensávamos ingenuamente.

Mas que mentira porca! Para começar, somos obrigados a votar. O princípio mais básico da escolha, que é o de decidir se quero participar ou não, nos foi tolhido. O brasileiro tem a obrigação de votar, e se não puder tem que se justificar oficialmente. Na festa da democracia brasileira nenhum de nós é convidado – somos todos obrigados a comparecer, e o que nos servem geralmente não daríamos nem a porcos, mas nos é apresentado como um banquete maravilhoso.

Mas ainda há muito mais: o sistema eleitoral brasileiro não apenas priva o eleitor de decidir se quer ou não participar do processo, mas o expõe a uma regra intrincada e praticamente impossível de se entender, no que tange à eleição de representantes do Legislativo, os vereadores, deputados estaduais (e distritais) e deputados federais. Continuando com nossa metáfora, o brasileiro vai à festa da democracia mas não sabe quem vai ganhar o presente que comprou. Ele compra o presente para o aniversariante, mas depois percebe que foi dado para aquele convidado que ele mal conhece, ou às vezes de quem nem mesmo gosta. A história recente mostra casos absurdos em nível federal, como o do deputado Tiririca, que foi eleito com a segunda maior votação da história (mais de um milhão e trezentos mil votos) e cujos votos foram suficientes para eleger mais três parlamentares que tiveram uma votação pífia, todos com menos de cem mil votos. Assim, o sujeito vota em um candidato, que pode chegar a um número considerável de votos, algo como trezentos mil, mas quem acaba eleito é um candidato com noventa mil votos, porque o mesmo teve um “puxador” forte em seu partido. Se isso não é uma mentira institucionalizada, não sei mais o que é.

E para terminar, não poderia faltar um parágrafo sobre as urnas eletrônicas brasileiras. Alardeadas pelo governo como a oitava maravilha do mundo, as urnas eletrônicas não permitem, de forma alguma, que haja conferência dos votos em caso de dúvida. O pior mesmo é que são eletrônicas, e por isso são passíveis de ser manipuladas e adulteradas, como qualquer sistema eletrônico. Acreditar que as urnas brasileiras são infalíveis é de uma ingenuidade tremenda. Afinal, se instituições com níveis de segurança altíssimos como bancos, como o FBI americano, como a Interpol e mesmo empresas como Google e Microsoft (que são oriundas desse mercado tecnológico) já tiveram seus servidores invadidos, porque haveríamos de acreditar que as urnas eletrônicas brasileiras são imunes a isso? Se você ainda tem dificuldade em crer, sugiro que se inscreva como fiscal de partido na próxima eleição. Alguns dias antes das eleições você receberá um treinamento que mostra todas as técnicas utilizadas para adulterar urnas eletrônicas, a título de conhecimento para prevenção. Há também inúmeros casos de candidatos que terminaram a eleição com nenhum voto (nem mesmo o seu), mas que sequer são ouvidos pela justiça eleitoral, e ainda têm de responder judicialmente por “incitarem dúvida sobre o processo eleitoral”. E terminando este assunto, já existem modelos de urna eletrônica, em outros países, que são seguras e permitem a conferência, pois são urnas que imprimem o voto, o qual fica disponível para recontagem em caso de dúvida dos partidos e dos candidatos – são chamadas de urnas de segunda e terceira geração. Até o momento em que este livro foi publicado não havia nenhum plano de mudança de nossas urnas para modelos mais seguros.

Assim, com tanta enganação e dificuldade em entender e exercer o voto de forma clara e segura, a “festa da democracia” adquire um significado completamente oposto. E sendo oposto à festa, só posso lamentar cada vez que ouço esses clichês pipocando na mídia, com reportagens que mostram velhinhos saindo de casa a muito custo para votar, como se apenas esse ato de se deslocar a uma zona eleitoral e apertar alguns botões bastasse para dizer que somos um país democrático. E o brasileiro, em sua grande maioria, segue acreditando nessas mentiras, que acabam se tornando “verdades” para a massa.

Eu não poderia deixar de mencionar nesse momento uma mentira complementar à da festa da democracia, que tem colaborado demais para a falência da democracia brasileira. É a mentira sobre a ideologia política, sobre direita e esquerda. Mas esse será o tema do próximo capítulo.

Fonte: QUINTELA, Flavio. Mentiram (e muito) para mim. Capítulo III.

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