Mais-valia (1)

“Em economia política, a sabedoria tem dúvidas; a ignorância, certezas.” (Eugen Von Böhm-Bawerk)

Eu nasci em 1975. Não sou mais um jovenzinho, mas ainda não cheguei aos quarenta. Tenho boa memória, de modo que lembro claramente de muitas coisas que me foram ditas nos primeiros anos de escola.

Em minha época de pré-escola fui poupado da doutrinação marxista – minhas primeiras lembranças de conteúdo claramente esquerdista são da quinta série, quando tinha então dez anos de idade. Assim, posso dizer que fui privilegiado, pois passei os primeiros nove anos de vida sem ouvir tantas mentiras assim. A mim era dito que deveria estudar, pois o estudo me daria condições de crescer e vencer; que deveria me esforçar para ser o primeiro aluno da classe, pois os primeiros seriam recompensados e teriam seu mérito reconhecido; que deveria buscar o conhecimento e a excelência desde cedo, pois somente assim eu poderia alcançar mais do que meus pais alcançaram, e ser motivo de orgulho para eles. Naquela época não existia progressão continuada, a série “A” era sempre a classe com os melhores alunos, e quem não estudava acabava mesmo é tomando pau, repetindo de ano. Detalhe importante: estudei a vida toda em escolas públicas, e mais precisamente, da primeira à oitava série, na Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau Professor Maurício Antunes Ferraz, vulgo “Jegão”, em São Bernardo do Campo.

Bom, voltando às primeiras mentiras, foi da boca da professora Clarice, que lecionava História, que saiu aquela palavra composta mentirosa e tosca, como se fosse a mais pura verdade: mais-valia. Sim, um conceito marxista já provado errado há mais de um século por Eugen von Böhm-Bawerk,[1] considerado praticamente como um conto da carochinha por todo o mundo ocidental civilizado, essa “maravilha marxista” me foi entregue como um segredo valioso que explicaria de onde vem toda a riqueza dos “terríveis e cruéis industriais capitalistas”. Lá estava ela, aquela professora baixinha e vermelha (tanto em seus cabelos ruivos como em seu esquerdismo patológico) “ensinando” crianças inocentes a odiar os industriais, os patrões, os chefes, os empreendedores e os ricos, pois essas pessoas só podiam ter mais bens que outras pelo simples fato de que, e agora vem a primeira mentira que vou listar neste livro,

para alguém ganhar mais, alguém tem que necessariamente ganhar menos.

Imagine a situação: mais de trinta crianças reunidas numa sala de aula, ouvindo daquele que se diz ser o mestre, o professor, a afirmação concreta de que não é possível ganhar mais sem fazer alguém ganhar menos. Se você foi estudante no Brasil, então também ouviu isso, e em algum momento se sentiu mal em querer ser rico. Afinal, se para ser rico eu preciso ferrar com alguém, tornando-o pobre, ou serei um rico vivendo em culpa ou serei um rico canalha, sem escrúpulos. Perceba o quão daninha e maldosa é essa primeira mentira que me contaram, e que contaram aos meus colegas de classe. Naquele momento, aos que optaram por acreditar em sua professora, fechou-se um mundo inteiro de possibilidades, pois a única opção a uma vida de culpa ou de canalhice era, necessariamente, ser um esquerdista e lutar pela implantação do socialismo no Brasil.

O mais incrível é que a mais-valia é tão fácil de se provar errada, que somente é possível ensiná-la como “verdade” quando se lida com crianças ou com idiotas – aquelas por sua ingenuidade e falta de malícia, estes por sua condição mental afetada. Uma breve análise da quantidade de riqueza gerada no mundo durante o século XX mostrará um aumento constante na riqueza global, aumento este que, por si só, inviabiliza o conceito-base da mais-valia, de que a riqueza apenas sai de uns para outros, e nunca é criada. Nos últimos trinta anos esse fenômeno de criação global de riqueza se intensificou, e com o advento dos mercados de tecnologia, especialmente com as empresas operantes no espaço virtual, na internet, a cada dia que passa um novo negócio é criado, novas pessoas ficam ricas, outras ficam milionárias, e esse dinheiro todo não sai, de modo algum, de empregados explorados por seus patrões. São riquezas criadas no dinamismo do mercado, que premia as melhores idéias com reconhecimento monetário, e mata as idéias inúteis por inanição.

Tentar explicar os lucros de empresas como Google e Facebook utilizando a mentira da mais-valia é como tentar explicar as chuvas e tempestades como sendo conseqüência das faxinas de São Pedro nas salas celestiais. Para quem não lembra, Marx diz que o lucro no sistema capitalista vem de um fato único: o patrão paga ao empregado menos do que o seu trabalho vale de verdade, e essa diferença, a mais-valia, vai sendo somada, de modo que o patrão acaba lucrando a soma de todas as mais-valias de seus empregados. Um raciocínio tosco, ridículo, que despreza toda a dinâmica dos mercados, e que se mostra ainda mais sem sentido na era da economia digital, onde se constrói uma empresa milionária em uma garagem, usando apenas inteligência e criatividade.

Assim, de agora em diante, para não confundir meus leitores, passarei a chamar a mais-valia de “lenda”, pois é algo tão real como o saci ou como o boitatá. Se você nunca olhou o livro de história que seus filhos usam na escola, agora seria uma boa hora, pois essa lenda está lá, firme como se fosse uma verdade divina, assombrando o espírito empreendedor de suas crianças, matando toda e qualquer admiração que elas possam um dia vir a ter pelo mundo dos negócios, pelas carreiras corporativas, pelo empreendedorismo, pela meritocracia e pela criatividade. Não deixe que um professor esquerdista limite seus filhos a uma existência rasa, cheia de falácias e mentiras. O Brasil precisa de ótimos alunos, de gênios e de, principalmente, gente que abandone a mediocridade e busque as partes altas da alma, um intelecto superior, um desejo de transcender o comum. Essa busca é a busca pela verdade, e a própria existência da verdade tem sido questionada, o que nos leva a mais uma mentira, em nosso próximo capítulo.


Notas

[1] A obra de Eugen von Böhm-Bawerk usada como referência está listada ao final do livro, na Bibliografia Básica, junto com diversas outras ótimas referências para o leitor que quiser se aprofundar em qualquer dos assuntos aqui abordados.

QUINTELA. Flavio. Mentiram (e muito) para mim. Capítulo I.

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