Mentira (1)

“Chega sempre um momento na história em que quem se atreve a dizer que dois e dois são quatro é condenado à morte.” (Albert Camus)

Não é de se admirar que o brasileiro médio não tenha a menor idéia do que é direita e esquerda, do que é livre mercado e de como funciona a economia. As mentiras são tantas, e em intensidade tão grande que, para a mente destreinada, já não são mais identificáveis como mentiras, mas como afirmações nebulosas dentro de uma nuvem de verdades relativas. Sem saber no que acreditar, a pessoa passa a rejeitar algumas verdades básicas e a aceitar algumas mentiras absurdas. Sair deste estado nebuloso da alma é algo que requer, acima de tudo, dedicação, humildade e honestidade intelectual. Qualquer traço de arrogância e soberba intelectual, por menor que seja, pode impedir a pessoa de se libertar, pois a soberba faz que ela despreze opiniões e idéias sem ao menos examiná-las a fundo. No geral, num mundo como o que vivemos hoje, em que a mídia é predominantemente esquerdista,[1] a soberba intelectual levará a pessoa a desprezar, em número muito superior, opiniões e idéias conservadoras, pois estas vão de encontro ao que já está estabelecido como “verdade”, e por isso são difamadas e tachadas como reacionárias e odiosas. A soberba, na medida em que desestimula a investigação honesta das idéias, acaba por perpetuar o establishment, ou seja, a hegemonia intelectual do momento.

Desde há algum tempo tem sido posta em prática a destruição sistemática do conceito da “verdade”. Esta destruição baseia-se na grande mentira que se tem disseminado em todas as escolas e universidades, de que não existem verdades absolutas, que tudo é relativo e sujeito à interpretação de cada um. Embora isto seja um conceito que se auto-contradiz – se não existem verdades, então a própria afirmação de que não existem verdades também não pode ser uma verdade – as pessoas não se cansam de dizer isso, afirmando de peito estufado que “o que é verdade para você pode não ser para mim”, repetindo da forma mais autômata e bocó toda a mentira que lhes foi contada por seus professores, pela mídia esquerdista e por toda uma militância que se infiltrou por completo nas camadas da sociedade brasileira.

Por que eu considero esta a mentira mais voraz de todas? Ora, as palavras são o que temos de mais precioso para nos ajudar a entender e descrever o mundo. Cada objeto, cada conceito, cada pedaço da realidade, se não for descritível em palavras, não é possível de ser comunicado. Assim, se eu tento descrever uma cadeira para meu interlocutor, e me utilizo da palavra cadeira, assumo que esta palavra será entendida por ele como um objeto que é usado para que alguém possa se sentar, que tem um encosto, que pode ou não ter braços, que tem pernas, que pode ser de madeira, de metal, de plástico etc. Não há como discutir a cadeira, ou qualquer que seja o assunto relacionado a ela, sem ter em comum o entendimento da palavra, da letra. Por sua vez, a própria cadeira traz consigo outras definições, que também precisam ser decodificadas – é preciso saber que os braços da cadeira são diferentes de braços humanos e de braços de rios. E assim o conjunto de palavras que conhecemos acaba por limitar o conjunto da realidade que conseguimos entender. O real existe independentemente de cada um de nós, mas a quantidade desse real que está à nossa disposição para discussão e análise depende tão somente do conjunto de códigos que possuímos para apreendê-lo: as palavras. É por isso que o esvaziamento da palavra “verdade” é algo tão sórdido e nefasto para uma sociedade, pois o conceito da verdade, estando embutido em tantos outros conceitos, é ele mesmo um alicerce para a apreensão da realidade, e em sua falta ou defeito residem as maiores dificuldades em entender o óbvio que se coloca diante de cada um. Se não existem verdades, então não existem códigos mútuos pelos quais possamos apreender a realidade, e cada um terá de se contentar em viver em um mundo somente seu, numa espécie de autismo existencial.

Esta grande mentira é como um extrato do mal e da vileza, que a tudo o que toca infecta e transforma em mais mentira. Assim, o primeiro objeto de ódio desta mentira é o que nos sustenta como civilização ocidental: a herança judaico-cristã. Todas as liberdades conquistadas duramente nos últimos séculos são fruto dos princípios disseminados pela cristandade, princípios de elevada moral que não só pautaram as vidas de seus santos e seguidores como a de civilizações inteiras. Não há como negar, historicamente, a importância dos princípios judaico-cristãos na formação das leis modernas, das liberdades e dos direitos. É impossível imaginar que uma civilização que partisse de valores absolutamente distintos como os do marxismo,[2] ou mesmo os do islamismo, chegasse a conceber coisas como liberdade de expressão, direito à vida e igualdade racial, entre outros. Basta olhar para os países comunistas e para as nações islâmicas, e nada se achará destas conquistas. Pelo contrário, é lá que não há liberdade de expressão, que a vida vale menos que uma opinião, e que homossexuais são assassinados pelo simples fato de assim serem.

O que seria fato até engraçado, se não fosse realmente trágico, é que a própria liberdade, garantida nas nações onde há democracia, acaba por ser uma arma nas mãos daqueles que querem suprimi-la. É o que se vê hoje no Brasil, em todas as maneiras possíveis e imagináveis – vereadores e deputados se utilizando da liberdade, e de muitas mentiras, para passar leis que tirem cada vez mais a liberdade das pessoas, em troca de uma falsa segurança ou de um respeito a um pseudo-direito. Explico com um exemplo: há um anteprojeto de lei absurdo que prevê a extinção da família tradicional heterossexual como base da sociedade,[3] criminalizando o uso de termos corriqueiros e normais como “pai” e “mãe”. A base desta monstruosidade consiste em explicações das mais absurdas, onde se defende o “direito” de uma minoria de crianças que não têm um pai ou uma mãe, ou seja, crianças que vivem em lares com pais homossexuais, de não serem ofendidas ou constrangidas quando se usa esses termos ou quando se comemora datas como “dia das mães” e “dia dos pais”. Ora, veja como é ridícula essa argumentação, bastando para isso aplicá-la a outras minorias:

  • vamos proibir que se pratique esportes, para que os tetraplégicos não se sintam mal;
  • vamos proibir que se atribuam notas à performance dos alunos, para que aqueles que têm notas baixas não se sintam constrangidos;
  • vamos proibir a venda de carros luxuosos, para que os que possuem carros mais simples não se sintam humilhados;
  • aliás, vamos proibir a venda de carros em absoluto, para que os usuários do transporte público não se sintam preteridos;
  • vamos proibir os programas de humor e a exibição de comédias, para que os melancólicos e depressivos não se sintam diminuídos.

Como você pode ver, sob um pretexto de proteger minorias, é possível proibir praticamente tudo, bastando para isso um grupo de políticos mal-intencionados e uma população massificada e adestrada como um todo por essa máquina de produzir mentiras que é o sistema educacional e a mídia brasileira. E é claro, esse tipo de absurdo somente é possível em um sistema de governo onde esses mesmos políticos mal-intencionados têm ao seu dispor instrumentos democráticos para criar leis que vão aos poucos solapando o próprio sistema. É como se estivéssemos todos num edifício, e em seu último andar houvesse um grande guindaste. Esse guindaste pode ser usado para construir mais andares, mas também pode ser usado para bater uma enorme bola de ferro contra os pilares de sustentação do próprio edifício. No Brasil é o que se faz hoje: aqueles que deveriam legislar em prol da consolidação da democracia são os que agem para destruí-la, agindo de dentro para fora, legitimados pela chamada “festa da democracia”, que aliás é nossa próxima mentira a ser desmascarada.


Notas

[1] Para mais informações sobre esse tema, veja artigo de Olavo de Carvalho em http://www.olavodecarvalho.org/semana/131110dc.html.

[2] É impossível negar que Marx foi um racista e um defensor do extermínio dos “inferiores”. Para mais informações veja http://juliosevero.blogspot.com.br/2006/06/o-racismo-de-karlmarx.html.

[3] Veja o texto deste anteprojeto (Estatuto da Diversidade Sexual) em http://direitohomoafetivo.com.br/uploads/5.%20ESTATUTO%20DA%20DIVERSIDADE%20SEXUAL %20texto.pdf.

Fonte: QUINTELA, Flavio. Mentiram (e muito) para mim. Capítulo II.

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