Adaptado do artigo de Rodrigo Silva | O Fiel Católico

No ponto cego ideológico, a maneira mais confortável de julgar um atentado à moralidade de “nossa tribo” é assumir a negação da realidade. Assim agiram os que negaram a veracidade do atentado a Jair Bolsonaro.

Atentado Bolsonaro (1)

SEGUNDO A FUNDAÇÃO Getúlio Vargas, numa análise de 1.702.949 retuítes coletados entre as 18h30 de quinta-feira, dia 6(/9/2018), e as 9h de sexta, um dia após o atentado sofrido por Jair Bolsonaro, 40,5% das pessoas que escreveram sobre o incidente na rede social questionavam a veracidade do ataque(!). Foi o maior grupo comentando sobre o assunto no Twitter nesse intervalo de tempo.

Esse é um nítido experimento sobre o funcionamento do viés de confirmação nas discussões políticas – e de como ele pode criar uma ilusão coletiva à qual, por mais absurda que seja, muitos optam por aderir.

Há dezenas de vídeos do atentado sofrido por Bolsonaro, há a captura e confissão de culpa do agressor, há fichas e boletins médicos, há boletins oficiais de instituições públicas, há relatos policiais e milhares de testemunhas, há a participação direta na divulgação de todos os maiores veículos de comunicação, emissoras de TV, jornais, rádios, etc., etc… – mas nenhum desses elementos é satisfatório para uma parcela de eleitores que não comungam dos valores ideológicos da vítima. Para esse grupo, toda cena não passou de uma grande conspiração para eleger Bolsonaro. E acredite: essas pessoas realmente entendem que representam o lado mais racional dessa discussão.

Como diz o americano Scott Adams:

A maioria das pessoas sabe o que é viés de confirmação, senão pelo nome, certamente por experiência pessoal. Todos sabemos quanto é difícil mudar a opinião de alguém sobre algo importante, mesmo quando todos os fatos estão do nosso lado.

Para Adams, é mais provável buscarmos a razão como uma justificativa para as nossas emoções do que o contrário. E não é difícil entender o motivo. Nós nos identificamos como liberais, conservadores ou progressistas em parte porque tentamos construir uma imagem social, em nossa busca desenfreada por uma identidade de grupo, seja para repelir a estética de determinados candidatos ou partidos, seja para sinalizar virtudes. No fundo, no apagar dos votos, pesa mais a fórmula do discurso do que (o que seria mais racional) os programas de governo.

Alguns indivíduos, é verdade, são honestos o bastante para se inteirar sobre os assuntos políticos e econômicos e eventualmente mudar de posição. Mas isso carrega um grande custo social, a julgar que o ser humano médio têm uma imensa dificuldade em admitir seus erros.

É exatamente nesse ponto que assumimos lutas em nome de um grupo ou ideal. Terceirizar nossas opiniões políticas, delegando-as a uma mente coletiva, é a forma mais fácil de abrir mão do trabalho de estudar, compreender e formular uma posição independente – algo que toma tempo e exige o abandono de atividades (e vícios) que não estamos dispostos a deixar de lado.

Como afirma a “Teoria da Ignorância Racional”, formulada ainda na década de cinquenta pelo economista americano Anthony Downs, as pessoas frequentemente escolhem permanecer ignorantes sobre determinados assuntos porque os custos de coletar as informações necessárias para obter conhecimento sobre eles são maiores que as recompensas dadas pela compreensão adquirida.

Pare e pense. A política inegavelmente exerce uma influência direta na vida das pessoas. Se tivéssemos a chance, certamente escolheríamos que todos os nossos conhecidos nutrissem consciência disso. Mas tempo é um bem escasso. Acompanhar os processos políticos de um Estado com tantas atribuições, seguindo as propostas e o trabalho de novos candidatos, vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores, prefeitos e presidentes da República, construindo uma base sólida de conhecimentos ligados a diferentes áreas – da ciência política à econômica– para embasar críticas ou elogios, e escolher as melhores opções para o país, pode ser algo perfeitamente plausível para você, que está lendo este texto e que se importa (e tem tempo para gastar) com o noticiário político, mas é uma tarefa inviável à imensa maioria dos eleitores, que entendem intuitivamente que cada voto tem um peso irrisório numa eleição e que, justamente por isso, sobram razões para gastar as suas horas em outras atividades. Para esses eleitores há incentivos maiores em permanecer ignorante em matéria de política do que abrir mão de exercícios com grandes recompensas diárias, como descansar com a família, trabalhar ou navegar sem propósito na internet.

Na prática, nós alimentamos a imagem pública de que nos importamos com um assunto tão relevante à sociedade, como a política, mas não queremos o custo que isso gera, nem assumir sozinhos o risco de estarmos errados. Por isso esperamos a posição de uma tribo ideológica minimamente solidária com nossa estética intelectual para nos darmos ao luxo de apenas replicar opiniões.

É aí que impera o viés de confirmação. O que acontece no mundo real passa a ser mero capricho – e o que poderia ser apenas um problema de discurso, atua diretamente como um agregador de pobreza: quase metade da riqueza nacional, entregue às decisões políticas através do pagamento de impostos, tem seu destino selado à irracionalidade das guerras de narrativas travadas pelas tribos ideológicas de quatro em quatro anos. Nosso viés de confirmação torna o país refém das alucinações.

Acredite, é pior do que você imagina.

No ano 2015, a Folha de São Paulo (com o Datafolha) “viu” na Avenida Paulista, durante as maiores manifestações populares da história do Brasil,  apenas e tão somente 210 mil participantes contra o governo do PT, contrariando radicalmente a estimativa da PM, que apontou um número superior a um milhão de pessoas, levando em conta que a cada dois minutos chegavam 4 mil para o protesto naquele local no meio da tarde. Na ocasião, o instituto de pesquisas foi criticado e a polêmica em torno dos números foi grande. Ainda que tenha se esforçado em justificar a sua estimativa com base em dados técnicos, outras fontes apontavam dados escandalosamente diferentes. Dado o já tradicional posicionamento ideológico da Folha, denunciado até por 61% dos seus próprios leitores[1], a apuração ultrapassou o limite daquilo que se poderia considerar apenas suspeito.

Mais curioso, porém, foi que a mesma Folha enxergou 220 mil na “parada gay” daquele mesmo ano. À ocasião, muitas imagens postas lado a lado, comparando os dois eventos, foram publicadas em redes sociais e por alguns veículos de mídia, mostrando com grande clareza que no ato político a lotação era realmente, no mínimo, muito maior. Mesmo estando flagrantemente equivocada, a Folha permaneceu firme em seu posicionamento. Eis um bom exemplo de dissonância cognitiva.

Manifestações (1)

Manifestações (2)

Como afirma Adams:

Quando você experimenta dissonância cognitiva, espontaneamente gera uma alucinação que se torna a sua realidade particular. Para observadores externos, a alucinação pode parecer ridícula. Mas, para aquele que a experimenta, ela faz todo sentido. Assim, a primeira coisa que você precisa saber sobre dissonância cognitiva é que é possível reconhecê-la com frequência nos outros, mas é raro reconhecê-la em si mesmo.

Esse é um fenômeno sem preconceitos partidários, mas que se acentua no populismo e em períodos de crise econômica e grande polarização. Ancorados em “cherry picking” (colher cerejas em inglês, expressão para significar a supressão proposital de evidências), nós não nos satisfazemos apenas em ignorar os elementos que condenam a moralidade da nossa tribo – mas também criamos teorias conspiratórias para imputar imoralidades imperdoáveis aos nossos adversários, no caso políticos, em acessos de esquizofrenia retórica. E fazemos tudo isso genuinamente crentes de que estamos lidando com o mundo real.

Como escreveu o economista austríaco Friedrich Hayek, vencedor do Nobel, em sua magnum opus “O Caminho da Servidão”:

Quase por uma lei da natureza humana, parece ser mais fácil aos homens concordarem sobre um programa negativo – o ódio a um inimigo ou a inveja aos que estão em melhor situação – do que sobre qualquer plano positivo. A antítese ‘nós’ e ‘eles’, a luta comum contra os que se acham fora do grupo, parece um ingrediente essencial a qualquer ideologia capaz de unir solidamente um grupo visando à ação comum. Por essa razão, é sempre utilizada por aqueles que procuram não só o apoio a um programa político mas também a fidelidade irrestrita de grandes massas.

Na dissonância cognitiva ideológica, o stress ocorre quando personagens políticos não correspondem às expectativas de nossos estereótipos. Se Jair Bolsonaro foi habilmente etiquetado como um instrumento de violência no conjunto de valores que listamos em nossa tribo, a alucinação atua para nos impedir de interpretá-lo como uma vítima, mesmo que ele tenha sido abatido pela violência, como foi – especialmente se a culpa for de algum membro assumido do nosso grupo. No ponto cego ideológico, a maneira mais confortável de julgar um atentado à moralidade de nossa tribo é simplesmente negar a realidade.

Fenômenos dessa natureza são expostos a cada momento nas redes sociais, mas raramente de modo tão claro e explícito como o apresentado no último final de semana. Ao fim do dia, quem nega o atentado contra Bolsonaro assume viver uma alucinação coletiva. E o pior: provavelmente jamais saberá disso.

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Adaptado do artigo de Rodrigo da Silva, ‘Quem nega o atentado contra Bolsonaro assume viver uma alucinação coletiva’, jornalista, editor do portal ‘Spotniks’ e autor do ‘Guia Politicamente Incorreto da Política Brasileira’ (LeYa, 2018).
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1. O próprio Datafolha reconhece a insatisfação de seus leitores devido ao contumaz posicionamento ideológico, em www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs090305.htm
Ref.:
www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/129260/junho87%20-%200549.pdf?sequence=1
• tercalivre.com.br/fake-news-jornal-folha-de-sao-paulo-infla-gastos-do-aborto-pelo-sus/

 

 

 

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